25 de fevereiro de 2013

Comissão do Esquecimento?

Filho de militantes de esquerda, Carlos Alexandre Azevedo foi preso e torturado no Dops paulista quando tinha 1 ano e 8 meses. Cresceu agressivo e isolado. Com 39 anos, ele ainda não havia conseguido superar o trauma das torturas a que foi submetido: vivia recluso, sem trabalho nem amigos - sofria de fobia social.¹ Na madrugada de 16/02 o pesadelo para ele acabou. Suicidou-se com uma overdose de medicamentos.

"Como acontece com os crimes da ditadura de 1964/1985, o crime ficou impune. O suicídio é o limite de sua angústia." (seu pai, Dermi Azevedo, em sua página no Facebook).²

A imprensa poderia lhe fazer alguma justiça", disse Luciano Martins Costa.³ Uma semana depois, no entanto, apenas um jornal trouxe o assunto como pauta.⁴

Parece que, de maneira geral, a ditadura é um assunto tabu. Na mídia, nas redes sociais, nas conversas com os amigos. É uma ferida que não cicatrizou e que não querem mexer pra não sangrar de novo.

Lembro-me da palestra de Salomón Lerner, ex-presidente da Comissão de Verdade e Reconciliação do Peru, durante a I Semana de Direitos Humanos, promovida pela Metodista, em 2010. Na época, ele disse: "É inaceitável enclausurar um passado violento. Para se formar uma sociedade pacífica, é necessário enfrentar sua história recente."

Para ele, a Comissão da Verdade é um corpo de caráter estatal ou internacional que se caracteriza pela independência do governo, para investigar os atos de violência. Coloca a sociedade em frente a um espelho que reflete coisas terríveis, crimes contra a humanidade e os direitos humanos, responsabiliza pessoas e instituições, e mostra as falhas históricas que tornaram esses crimes possíveis. Recupera uma verdade que foi reformada ou negada, dando à sociedade e ao governo um importante instrumento de justiça.

O objetivo da Comissão da Verdade é a reconciliação. Contudo, não há reconciliação se há impunidade.

"Pedir perdão e perdoar não tem nada a ver com Justiça", disse ele. E continuou: "Há quem diga que o melhor é esquecer e seguir adiante. O esquecimento não é remédio, é agravamento do mal. Esquecer é ser indiferente ao dano, e trair o princípio da solidariedade, aceitar uma mirada frívola sobre o presente sem coragem de escavar raízes para que o presente seja purificado".

A Profª Roseli Fischmann, completou: "Esquecer é ser conivente e compactuar".

O silêncio que, décadas depois, ainda permanece sobre a ditadura aterroriza. Por que não queremos enfrentar este período do passado recente do nosso país, da nossa história? Por que a imprensa parece ignorar todo assunto relacionado à ditadura? Tentativa de esquecimento?

"Contando histórias como essa, a imprensa poderia oferecer um pouco de luz para os alienados que ainda usam as redes sociais para pedir a volta da ditadura", escreveu Luciano Martins Costa.

Oferecer um pouco de luz sobre este assunto é o mínimo que se espera da imprensa brasileira. Na verdade, gostaria de ver relâmpagos e trovoadas sobre este período. Clarões e muito barulho. Se não na imprensa, nas redes sociais.

Mas já percebi que, infelizmente, apenas piadinhas e figurinhas fofas são "curtidas" e compartilhadas pela grande maioria.

Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

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[1]AZEVEDO, Solange. A ditadura não acabou. Revista Isto É. Disponível em: http://www.istoe.com.br/reportagens/paginar/46424_A+DITADURA+NAO+ACABOU+/1. Acesso em: 17 fev. 2013.

[2] PACHECO, Tania. Para Carlos Augusto, a ditadura finalmente acabou. Blog Racismo Ambiental. Disponível em: http://racismoambiental.net.br/2013/02/para-carlos-augusto-a-ditadura-finalmente-acabou-nossa-solidariedade-a-sua-familia/. Acesso em: 17 fev. 2013.

[3] COSTA, Luciano Martins. Morrer aos poucos. Observatório da Imprensa. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/morrer_aos_poucos. Acesso em: 19 fev. 2013.

[4] ______. A imprensa e o caso das crianças torturadas. Observatório da Imprensa. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_imprensa_e_o_caso_das_criancas_torturadas. Acesso em: 25 fev. 2013.

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