6 de maio de 2011

da intolerância a opiniões divergentes

Ontem o Supremo Tribunal Federal brasileiro aprovou, por unanimidade, o reconhecimento dos direitos de união estável a casais homossexuais. Um tema bastante polêmico, especialmente devido à fundamentalismos e dogmas religiosos, já que, para a maioria das religiões, amar uma pessoa do mesmo sexo é pecado; afinal, ainda segundo alguns preceitos religiosos, a única finalidade de estarmos na Terra é a procriação e a continuidade da espécie, e uma família que não tenha esse objetivo não é uma família. Logo, os inférteis e os que optam por não ter filhos jamais formarão uma família, de acordo com tais preceitos.

Obviamente, diversas opiniões sobre o tema povoaram o universo das redes sociais, e  intolerância a opiniões divergentes levou a comentários desrespeitosos, opiniões apagadas, perda de seguidores, perfis bloqueados, mensagens restritas. Apesar de apenas colocarem em prática o seu direito à privacidade - mesmo que em redes sociais, e entre pessoas conhecidas e que foram "aprovadas" como amigos para terem acesso à "sua" rede -, não modificam ou excluem os demais pensamentos contrários aos seus pelo mundo. Podemos tentar nos fechar em nosso mundo de fantasia, mas a arredoma é de vidro, e a vida pulsa lá fora, com toda a sua diversidade de pensamentos, opiniões, ideais, valores, conceitos, morais, experiências, com toda a sua diversidade de VIDA.

Se não somos capazes de compartilhar, de conviver com opiniões contrárias, de argumentar, de defender o que acreditamos, bloquear o acesso às nossas redes sociais é uma solução temporária e paliativa. Mas o que fazer ao nos depararmos com a vida real, e a realidade de opiniões divergentes à nossa? Exterminar tudo o que for contrário às nossas convicções? Eleger um Hitler do século XXI, para aniquilar tudo o que não consideramos opiniões puras e arianas, como as nossas?

A decisão do Supremo Tribunal Federal apenas reconhece juridicamente uma situação que existe há milênios, mas que é discriminada devido a preceitos religiosos. Mesmo que o STF não reconhecesse a união estável homoafetiva, ela não deixaria de existir, aí mesmo, na sua família, no seu bairro, na sua cidade.

Os homossexuais não deixariam de existir, não virariam pó, mesmo que não fosse reconhecida a união de mais de 60 mil casais homossexuais em nosso país (de acordo com o último censo). Eles apenas continuariam na clandestinidade, tendo os seus direitos ainda negados, tendo a proteção da dignidade da pessoa humana violada pelo Estado, mas continuariam existindo. E vocês teriam que conviver com isso, de qualquer forma, querendo ou não, sendo juridicamente reconhecido ou não. Isso é fato, não é princípio: homossexuais existem, não são fruto da imaginação popular, lenda urbana ou demônio bíblico. São seres humanos, como nós, espalhados pelo mundo, com desejos, sentimentos, objetivos, que pagam seus impostos, trabalham, amam, ouvem música, dançam, fazem compras... e porque têm uma opção sexual diferente da sua, não têm o direito de serem felizes, de terem seus direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição Federal do país em que vivem?

E isso tudo por quê? Por que agem contra os seus princípios religiosos? Por que desafiam os escritos em um livro dito sagrado (mas escrito por humanos)? Por que desafiam os chamados padrões sociais? Por que questionam o argumento simplório de que Deus não quis?

Enfim, finalmente o direito básico ao reconhecimento de uma união estável foi concedido aos homossexuais. Depois de muita luta, assim como as demais conquistas sociais das minorias, conforme nos mostra a história da humanidade. O reconhecimento unânime pelos ministros do Supremo Tribunal Federal dá início a um momento histórico de reparo às violações aos direitos dos homossexuais.

A Justiça humana caminha rumo ao respeito à diversidade. Me espanta que o criador da raça humana, à sua imagem e semelhança, seja contrário à diversidade de sua própria criação.

5 comentários:

  1. Muito bem Raquel, mais um texto brilhante onde você aponta para todos e derrama sabedoria na nossa cama, na nossa sala, em nossa cozinha e principalmente no banheiro...
    Achei super legal o que você escreveu, e vejo o quanto as noticias dos ultimos dias estão tendo certo nexo com determinados temas que estão sendo discutidos, veja por exemplo aquele texto que compartilhei no Facebook do Filosofo Paulo Ghiraldelli...
    Olha, muito boa analise.

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  2. Por mais que eu possa parecer "preconceituoso", na verdade nao suporto essa palavra no contexto que atualmente vem sendo usada, nao o sou! Sou sim, conceituoso, ja que tenho a minha opiniao formada e nao me baseo por ditos ou mesmo pura influencia de outras pessoas. Bem, a uniao entre pessoas do mesmo sexo e algo que e uma realidade no mundo inteiro e nao levando bandeira sobre o tema. Sou contraio ao ato homossexual e entendo que esse e um DIREITO que eu tenho. Vejam bem, falei que sou contrario ao ATO e NAO as pessoas, ou seja, o carater a moral que cada um possui deve ser independente de sua opcao sexual. Entretanto vejo que no cenario que hoje vivemos ser contra a uma certa atitude ou mesmo nao concordar faz de voce um PRECONCEITUOSO, HOMOFOBICO e coisas do genero. Entretanto vejo que meu DIREITO a escolha foi tolido e percebo que hoje ando na contra mao. Entretanto tenho meu preceitos e opiniao solidas e com total tranquilidade e sem qualquer tipo de PRECONCEITO digo que sou contra ao ato homossexual. Quanto as brutalidades que sao realizadas contras as pessoas que optao por serem desse seguimento, resalto que sou RADICALMENTE contra pois NINGUEM tem o direito de agredir a outrem por ter uma opcao sexual diferente da sua. Mas pergunto de forma educada e curiosa: Porque sou eu discriminado se me pronunciar contra o comportamento gay? por que eu nao posso ter uma outra opiniao e por que nao tenho o DIRETO de me manifestar sem ser declarado preconceituoso. Ou sera que nao tenho mais essa prerrogativa de liberdade de expressao. E pergunto ainda um casal de gays que resolvam ter um filho, eles desejam que seu filho seja HETERO ou HOMO? nao me refiro a respeito ou aceitacao, me refiro a desejo. Bem aqueles que desejarem responder que o façam mas a reposta verdadeira apenas voce sabera. Espero que quem ler estas linhas entendam meu ponto de vista e percebam que nao estou aqui para provocar qualquer tipo de discriminacao mas sim esclarecimento e entendimento.

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  3. Olá, amigo Anônimo. O seu direito de escolha quanto à sua opção sexual não foi tolido, e nem será. Mas não queira impor a sua escolha aos demais.
    Quanto ao desejo do filho ser homo ou hétero, geralmente os pais gostariam que os filhos fossem uma cópia deles mesmos. Acho que isso responde a sua pergunta. No entanto, nem sempre é assim. E aí cabe o respeito à escolha sexual de cada um. Um abraço.

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    1. Ola Raquel,
      Creio que vc nao tenha lido totalmente o que escrevi ou nao tenha entendido, pois em NENHUM momento tentei IMPOR minha opiniao. apenas coloquei em questao minha visao. Voce pode reparar que resaltei que sou contra a violencia e o preconceito. Mas a realidade hoje e essa, se em alguma roda de debate me pronunciar ser contra ao ATO HOMOSEXUAL ja sou taxado de HOMOFOBICO. Como e visto uma pessoa vegetariana entre as que nao sao? Bem, polemica sempre havera...continuo com minha posicao. APENAS PARA REFORCAR: eu tenho parente gay e somos super amigos! nada mudou ( e nunca mudara) depois que eu fiquei sabendo a vida pessoal nao me importa e sim a pessoa.
      Espero que agora tenha sido mais claro, NAO QUERO IMPOR NADA A NINGUEM.
      ABRACO BE HAPPY!

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    2. Uma pessoa vegetariana entre pessoas que não são vegetarianas é tratada da mesma forma. Afinal, somos todos da mesma espécie. Ou não?
      O incômodo geralmente está em quem observa o diferente, e não em quem é diferente.
      Expressar que você é contra o ATO HOMOSSEXUAL tem qual intuito?
      Julgar menos e respeitar mais, esse é o ideal.
      Um abraço.

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