2 de janeiro de 2011

ônibus 174

Hoje assisti ao documentário de José Padilha, Ônibus 174, de 2002, sobre o sequestro do ônibus por Sandro Barbosa do Nascimento, em 12 de junho de 2000. O filme tem um enfoque completamente diferente da ficção dirigida por Bruno Barreto, que também não deixa nada a desejar para uma reflexão sobre a história.


O sequestro foi filmado e transmitido ao vivo pela televisão, cujas imagens são mostradas no documentário, que não se restringe apenas ao sequestro, mas também mostra o processo de transformação da criança de rua em bandido, analisando o processo de exclusão social de Sandro, que após presenciar o assassinato de sua mãe aos seis anos de idade, virou menino de rua e acabou se viciando em drogas e roubando para manter o vício em cola e cocaína.



Sandro era um dos meninos de rua sobreviventes da chacina da Candelária, que ocorreu em 23 de julho de 1993, onde seis menores e dois maiores sem-teto foram assassinados por policiais militares. Durante o sequestro do ônibus 174, Sandro fez várias menções à chacina da Candelária, o que sugere que o evento o deixou perturbado psicologicamente.

Na época, Yvonne Bezerra de Mello, que desde 1989 realiza um trabalho com crianças de rua, alfabetizando-as e ensinando-lhes algo a céu aberto, questionou: "O que este país está fazendo com a sua infância?". Yvonne citou a "omissão das elites" e a indiferença à pobreza. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, foi além: "Existe na sociedade brasileira uma parcela significativa de pessoas que defendem o extermínio de crianças. E existem também nas corporações policiais pessoas dispostas a cumprir essa terrível tarefa".

Foto: Diário Liberdade
A reação à chacina da Candelária surgiu primeiro fora do Brasil. O incidente ganhou o apoio de grande parte da opinião popular brasileira, que aplaude o fuzilamento frio, brutal e premeditado das crianças de rua. "Tem que matar mesmo". No mesmo dia, o governo do Estado do Rio de Janeiro veiculou em rádios e emissoras de televisão um telefone para quem pudesse contribuir para a elucidação da chacina. Na primeira hora ligaram 25 pessoas, apenas duas com denúncias sobre a matança. A maioria telefonou para festejar a brutalidade, dizendo coisas do tipo: "Deviam ter matado todos", "Esses pivetes têm que morrer", "Ainda foi pouco, deviam arrancar a cabeça deles".

Além disso, durante as três horas do programa Show de Notícias, apresentado pela jornalista Liliana Rodriguez na Rádio CBN, 23 pessoas ligaram para falar sobre o fuzilamento. Todas apoiaram a chacina dos meninos na Candelária.

Pinturas no chão representam corpos de crianças vítimas da chacina no RJ (Foto: Portal Uai)
Durante a I Semana de Educação em Direitos Humanos, promovida pela Universidade Metodista de São Paulo, o Prof. Dr. Jung Mo Sung, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, destacou a necessidade de se fomentar a compaixão: toda vez que vejo um excluído, um menino de rua, eu sofro. A vítima social passa a ser a culpada pelo meu sofrimento. E com isso, quero que todos os excluídos sumam, para que eu não sofra. Isso explica a reação popular em aplaudir a chacina da Candelária. Ao invés de usarmos a compaixão, a empatia, e nos colocarmos no lugar desses meninos de rua, preferimos exterminá-los do nosso dia-a-dia.

O grande paradoxo disto traz à tona a questão da fragilidade do argumento de proteção à vida destes mesmos brasileiros, que se colocam contra o aborto por ser um "crime contra a vida", mas ao mesmo tempo apóiam o assassinato de crianças de rua. Não me prolongarei muito neste ponto, mas fica aqui a reflexão. Se a vida de um feto é tão importante que a mulher não pode decidir levar ou não uma gravidez adiante, por que não vemos uma reação popular contra o assassinato destas crianças de rua, trabalhos voluntários na erradicação desta problemática social de negligência, abandono e miséria? Me parece que a preocupação com o valor "sagrado" da vida desaparece com o nascimento do feto.

Foto: Portal Correio
O sequestro do ônibus 174 terminou com a morte de uma das reféns, Geísa Firmo Gonçalves, que foi alvejada quatro vezes: a primeira vez, pelo policial, com o que deveria ter sido o tiro letal em Sandro mas que feriu o queixo da moça. A reação de Sandro foi se abaixar, usando a jovem como escudo, ao mesmo tempo em que disparava à queima roupa, atingindo o tronco e o meio das costas de Geísa.


Com a refém morta, Sandro foi imobilizado pelos policiais, enquanto uma multidão correu para linchá-lo. Ele foi colocado na viatura com outros policias, e morto por asfixia, já imobilizado, dentro do camburão.
 
Após alegações de que a morte de Sandro foi "ocasional", os policiais responsáveis pela morte de Sandro foram levados a julgamento por assassinato e foram declarados inocentes. Na verdade, para a sociedade em geral, apenas terminaram o que haviam começado na chacina da Candelária.

Enquanto três mil pessoas acompanharam o enterro de Geísa Firmo Gonçalves em Fortaleza (CE), o enterro de Sandro Barbosa do Nascimento teve apenas a presença de sua mãe adotiva, Elza da Silva. O menino que queria deixar de ser invisível e ser tratado como pessoa ao invés de um problema continuou a ser ignorado até o último momento de seus 21 anos de vida, marcados por tragédias, descasos e negligência.

Em novembro de 2001, a linha 174 mudou de número para 158.
 
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Referências:
 
REVISTA MARIE CLAIRE. Entrevista do mês: Yvonne Bezerra de Mello. Disponível em: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML1695209-1739,00.html. Acesso em 02 jan. 2011.
 
REVISTA VEJA. A chacina das crianças da Candelária. 28 de julho de 1993. Disponível em: http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_28071993.shtml . Acesso em 02 jan. 2011.
 
WIKIPÉDIA. Chacina da Candelária. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Chacina_da_Candel%C3%A1ria. Acesso em 02 jan. 2011.

______. Ônibus 174. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%94nibus_174. Acesso em 02 jan. 2011.

______. Sandro Barbosa do Nascimento. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sandro_Barbosa_do_Nascimento. Acesso em 02 jan. 2011.

______. Sequestro do ônibus 174. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sequestro_do_%C3%B4nibus_174. Acesso em 02 jan. 2011.

4 comentários:

  1. Vem cá, o cara era um bandido
    Entendo que ele teve uma vida difícil desde o início, mas a professora Geisa nao tinha nada a ver com os problemas dele. Ela foi torturada psicologicamente por ele por horas e foi assassinada por ele, que atirou nas costas dele. E mais: enquanto o filho da Geisa esta orfao de mae, a mae adotiva do Sandro, que obviamente nao fez um bom trabalho em cria-lo, ganhou um dinheirinho do governo pela morte dele.

    Muito facil defender bandido, quero ver levar para casa para criar.

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    1. Muito fácil falar quando se tem boas condições para viver.
      Agora tente crescer em um ambiente onde sua mãe foi assassinada, sua existência é ignorada por tudo e todos a sua volta, presenciou uma chacina quando criança, tudo isso contribui para quem ele se tornou.
      Ele se tornou um bandido por causa do governo, que não tem um plano de vida consciente e saudável, somos seres humanos antes de mais nada.
      Ele precisava de um lar, uma terapia, alguém que mostrasse que ele tem tanto valor quanto um burguesinho de merda que fica do topo do mundo julgando quem deve ou não ter uma vida digna disso tudo.
      Bandido não deve ser protegido não, mas se continuar a colocar só os bandidos das ruas na cadeia e deixar os bandidos com licença pra matar na rua, isso que aconteceu é só o começo.

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  2. esse cara, eu acho que é sequestrador. Na verdade essa linha de ônibus 174rj foi extinta. A atual linha 174 Rj foi substituída. Várias linhas do rio tem riscos de acidentes e sequestros, incêndios. 70 por cento os ônibus tenham renovados.

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  3. A morte do sequestrador, e a morte da passageira são esclarecidas por policial militar atirar de forma incomum assim, atirou no queixo da
    passageira que foi feio. E mesmo que a passageira morta foi sepultada e o sequestrador morto foi sepultado no cemitério do rio. Quem vai pagar pelo sequestro da linha174rj? e pela morte do sequestrador morto e da passageira. Como vai ser isso? Quem vai pagar?

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