20 de novembro de 2010

pais: crianças generalizadas

Em um seminário sobre as psicoses infantis, em 1968, o psicanalista francês Jacques Lacan disse que, no futuro, todos seriam "crianças generalizadas".

Vemos atualmente muitos pais que não amadureceram, continuam eternos adolescentes. Muitos acabam de certa forma "competindo" com os filhos, e muitos acabam delegando suas responsabilidades para os próprios filhos, por exemplo, deixando aos filhos a tarefa de orientar os irmãos.

Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você.
(Legião Urbana)

Contudo, vale ressaltar que o modelo tradicional de família do passado seguia apenas um padrão, onde mulheres casavam cedo, tinham filhos cedo, isso porque já eram preparadas para tais tarefas desde o nascimento. Na verdade, não havia liberdade em se descobrir, em escolher um modo de vida, tanto para homens quanto para mulheres, ainda que a questão da escolha fosse mais difícil para as mulheres. Tudo já estava pré-estabelecido, e aqueles que questionavam tal modelo ou buscavam um modo de vida diferente, eram repreendidos.

Acredito que um ponto fundamental e que é urgente em nossa sociedade atual é o questionamento do antigo instituto familiar "padrão", que ainda serve como modelo nos dias atuais, apesar de uma série de "novas" famílias contemporâneas monoparentais, homoparentais, clonadas, desconstruídas, recompostas. A grande maioria das pessoas casam e tem filhos, mas não sabem o motivo, apenas o fazem porque "é assim", porque há um costume, uma cobrança da sociedade em se manter esse padrão. Casais tem filhos mas não o fazem porque querem, mas porque "é assim que tem que ser". E aí temos como resultado pais-crianças, que não se prepararam para a educação do filho e as demais preocupações e responsabilidades vindas com essa nova vida.

Em contrapartida, aqueles que optam por não ter filhos sofrem uma grande pressão da sociedade em geral, como se o único propósito da união entre duas pessoas, ainda nos dias atuais, seja somente a reprodução. E aí, aqueles que não suportam essa pressão, acabam "consentindo" à essa demanda externa de se seguir o antigo "padrão", têm filhos, mas acabam delegando a responsabilidade da criação para os avós, escolas, e sociedade em geral. Tal atitude prejudica não só aos pais, que, ainda crianças, não estão preparados para tal responsabilidade, mas principalmente às crianças, que crescem em um ambiente onde não encontram uma base sólida para formação de sua personalidade, sem exemplos e modelos, onde muitas vezes não se identifica, não é querida, é deixada de lado.

Enquanto isso, homossexuais reivindicam o direito ao casamento e à adoção de crianças, talvez porque, justamente, por já não seguirem e não se enquadrarem no "modelo" tradicional imposto pela sociedade, têm melhores condições de planejarem e se prepararem para a constituição de uma família que, ainda que diferente, segue o antigo modelo tradicional.

4 comentários:

  1. Estava conversando sobre algo deste tipo ainda hoje com a minha mãe Raquel. Mas na verdade estavamos conversando sobre a imagem da mulher. Me deu vontade de conhecer um pouco mais da velha aqui de casa.
    Esse texto ainda nos deixa uma pergunta: Por que as pessoas resolvem ser pais?

    Eu me enquadro perfeitamente nesse seu texto. Meu pai foi pai aos 21 e minha mãe que é estrangeira com 28. Meu pai era aquele tipico jovem que sonhava grade ($). Sua ambição de certa forma o dominou. Minha mãe apaixonada pelo meu pai ficou gravida e ai nasceu eu. Com o meu nascimento meu pai teve de sair de casa e ir morar com a minha mãe. E isso foi o grande problema por que a minha mãe até estava mais madura para ser mãe, mas o meu pai não estava. E por causa disso tive grandes buracos na minha criação. Não fui criado como os outros meninos. Meu pai era jovem, o que ele poderia me oferecer de experiência a não ser a famosa frase que ele sempre me disse "estude muito para nunca passar por dificuldades na vida meu filho" e "quem tem amigo é quem tem amigo no bolso". Tem muitas outras coisas que eu aprendi com eles e desaprovei muita coisa. Mas são meus pais não é mesmo. Eu os amo. Hoje o meu pai tá numa outra fase da vida dele, mais velho, a obrigação que ele tem e que eu tento sempre demonstrar é que ele tem o meu irmão para criar agora.
    Eu sempre os ouvi muito. Me dei mal várias vezes, entrei em cada uma que se não fosse por eles estaria morto neste momento. Hoje eu sou um filho diferente. o que eles sempre sonharam que eu fosse um dia. Isso me orgulha. Mas olho para quem sou e fica uma enorme interrogação.
    Meu modelo familiar é o padrão. Estranho mas já tive várias experiências com outros tipos de familias e realmente é muito diferente da minha familia. Um exemplo é a familia da minha namorada onde os pais são separados.
    Hoje eu estudo e trabalho para não ser como o meu pai foi um dia, e quero ter a bagagem necessária para poder educar os meus filhos que eu irei ter um dia. Quero ser um pai, e não um inimigo para os meus filhos.

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  2. Oi Marcelo,
    Comecei a responder a sua pergunta (Por que as pessoas resolvem ser pais?), e achei melhor escrever um post sobre o assunto: filhos, por que tê-los?.
    Abraços.

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  3. Oi, Raquel!

    Penso exatamente como você. Aqui tb não pretendemos ter filhos. Não seguimos estes padrões, não casamos na igreja (nem temos religião), casamos no civil de manhã e a tarde viajamos em lua de mel para Paraty.

    Vejo muitas amigas e conhecidas tendo filhos, muitas "por acidente". Em outras vejo perfeitamente este perfil citado: mulheres que sentem que para serem alguém ou terem algum valor no mundo, devem ser mães. E então projetam seus sonhos neles.

    Eu não quero ter filhos desde que me conheço por gente. E tb escuto das pessoas que penso assim pq sou nova, mas quando estiver mais velha, blá, blá, blá... penso que quando estiver mais velha, serei ainda mais madura para reconhecer que não devo projetar meus sonhos em outro ser e que este mundo não é lugar pra mais humanos.

    Enfim...

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  4. Oi Van,

    Eu também não tenho religião. Quando casei, o momento que eu mais ansiava era acordar no dia seguinte ao casamento: o meu primeiro dia de uma nova etapa da minha vida. E foi exatamente como imaginei. Na verdade, recordando agora, foi ainda melhor.

    Penso como você. A maturidade tende a me trazer cada vez mais certeza da falta de propósito em ter filhos na minha vida. Na verdade, cuidar de vários cachorros é que está nos meus planos. No momento tenho dois.

    Obrigada pela visita!

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