20 de novembro de 2010

filhos, por que tê-los?

O que motiva as pessoas a quererem ser pais?

Algumas amigas sonhavam ser mães. Desde crianças, quando questionadas sobre o que queriam ser quando crescessem, respondiam "mãe".

Eu, por outro lado, nunca gostei de brincar de casinha, odiava aquelas bonecas "bebezão". Ser mãe era uma coisa bem distante. Meu objetivo era casar com o príncipe William, ser uma princesa e viver uma vida de Barbie, com altas aventuras, intrigas, suspense, romance. Nada de filhos.

Não sou um monstro que come criancinhas no almoço, mas até hoje não quero ter filhos. E quando digo isso, me olham indignados, com ar de reprovação, e me perguntam se é por traumas de infância, se é por causa da relação com meus pais ou por causa da minha família de pais separados e meio-irmãos. Enfim, tem que ter um motivo, não posso simplesmente não querer ter filhos, da mesma forma que não quis casar na igreja (e não casei).

Outros dizem "bobagem, você é nova, um dia você vai querer ter filhos". Será? Não sei. Claro que a gente sempre pode mudar de opinião, mas até hoje não sinto vontade de casar de véu e grinalda, e não me arrependo da maneira como casei (cerimônia no civil de manhã + jantar para a família à noite). Na verdade, se fosse hoje em dia, acho que manteria apenas a cerimônia no civil, e excluiria o jantar para a família à noite.

O fato é que as pessoas não admitem que alguém simplesmente não queira ter filhos.

A grande maioria das pessoas tem filhos simplesmente porque "é assim que tem que ser": a gente nasce, cresce, casa, tem filhos e morre. Simplesmente vão no "ritmo" da vida, sem parar para questionar absolutamente nada do seu dia-a-dia, do que se transformou a sua vida. Apenas aceitam passivamente que é assim que tem que ser. E isso inclui trabalho, família, rotina, e filhos, claro.

De um lado, temos a sociedade que nos cobra o pacote "casamento + filhos". De outro lado, algumas religiões que pregam que não existe o instituto familiar sem a existência dos filhos. Coitados daqueles que são estéreis, condenados a viver uma vida sem constituirem uma família - a não ser que adotem, coisa que não passa pela cabeça da maioria de nós, egoístas narcisistas, afinal, o meu filho tem que levar o meu sangue.

Marcio de Almeida Bueno retrata muito bem esta linha de raciocínio:

Parece que só tendo um filho é que muita gente se sente parte do mundo, quase um ato patriótico de construção de população, como se isso realmente fosse necessário. Se o objetivo é criar uma outra pessoa, educar, dar meios para ser um adulto, que se tenha um mínimo de pena das crianças à espera de adoção, no lugar do egoísmo frouxo e ‘boa família’ que habita corações e mentes de casaizinhos socialmente ingênuos.

O maior ato de amor, nessa farsa chamada ‘a instituição da família’, seria trazer para dentro da própria casa uma pessoa que não saiu de um útero-forno de padaria após mistura de ingredientes próprios. Que diferença faz para o sentimento? Sinto cheiro de egoísmo assando na cozinha.¹

O ato de "ter filhos" é, na verdade, muito egoísta, pois se pensa em realizar um desejo próprio, numa satisfação pessoal. Muito pouco ou quase nada se pensa na criança que vai nascer e na vida autônoma que ela terá direito (ou pelo menos deveria ter direito). Na verdade, segundo Freud, "a criança deve satisfazer os sonhos e os desejos nunca realizados dos pais, tornar-se um grande homem e herói no lugar do pai, ou desposar um príncipe, a título de indenização tardia da mãe".¹

Com tantas crianças abandonadas pelo mundo, o cúmulo do egoísmo é querer ter seu próprio filho. Afinal, se a motivação para se ter filhos vem da vontade de cuidar e criar alguém, essa criança não precisa ter seu sangue, seus genes. Basta ser uma criança desprovida de cuidados e carinho.

Mas a verdadeira motivação não é o outro; é satisfazer a si próprio. Quero ter um filho que se pareça comigo, não quero colocar um estranho dentro da minha casa, alguém que não sei nem de onde veio.

Ao invés de buscar a adoção, cada vez mais as pessoas que não podem ter filhos buscam os tratamentos de fertilidade, tão comuns nos dias atuais, com o propósito de realizar o sonho de pais que não podem gerar seus filhos de maneira natural. Como resultado, uma série de gêmeos e múltiplos são gerados, muitos não resistem à gestação, outros nascem prematuros e não sobrevivem, e alguns dos sobreviventes apresentam defeitos congênitos. Mais uma prova de que os pais pensam apenas em si e não medem as consequências na vida dessas crianças.

Voltemos à questão inicial: O que motiva as pessoas a quererem ser pais? Cada vez mais me convenço de que se trata de uma realização pessoal, de um ato egoísta e narcisista, e nada mais. Afinal, em um mundo com mais de seis bilhões de pessoas, ter filhos para a preservação da espécie é uma justificativa um tanto quanto ultrapassada.


¹ BUENO, Marcio de Almeida. Filhos: cheiro de egoísmo assando na cozinha. Disponível em: http://www.anda.jor.br/2010/02/07/filhos-cheiro-de-egoismo-assando-na-cozinha/. Acesso em 20 nov. 2010.

² FREUD, Sigmund (1914). À Guisa de Introdução ao Narcisismo. In: Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 2004. p.110.

5 comentários:

  1. Adorei o post Raquel. Me abriu os olhos, me fez pensar muito. Acho que deveria ter um dia para cada pensamento meu.
    Você respondeu a pergunta que eu já sabia a resposta. É isso mesmo. Calma, vou explicar.
    Neste poste você me mostrou o egoísmo de querer ter filhos, mas isso é um só lado da moeda. Mas voltando ao post, penso assim. Eu sou exatamente isso que você disse e descreveu. Sou uma criança que não foi satisfeita e quero ter crianças para que me satisfaçam.

    Sempre brinco com a minha namorada de ter quatro filhos, e disse isso para todas as outras que já passaram na minha vida. Mas de fato é verdade! Eu quero ter quatro menininhos e uma menina. Eu sou um perfeito monstro ao pensar assim. Os seus posts me dão um tapa na cara de vez em quando. Mas eu enxergo mais ao sair daqui. não é atoa que este é o blog que acompanho de uns dias para cá.
    Voltando ao centro do texto. vi que realmente é puro desejo meu. Um egoísmo doentio que se eu não observar desde já me acarretará sérios problemas no futuro.
    Tem mais coisas a se observar em toda essa questão. É muito facál fazer crianças, como disse ontem no post, meu pai me teve não porque ele queria, mas porque foi um "aconteceu". Isso pode acontecer comigo, alias é o meu maior medo. Além do monstro que está em mim tem essa questão ai apresentada.
    Também sou daqueles que não é muito fã de adoção. Mas sim, já me surgiu a ideia. Eu acho o ato bonito e talz, mas as crianças crescem. E ai eu tenho de confessar que a questão da estirpe ainda me rodeia.

    Mas no post você também abordou a questão do casamento. Por acaso lhe cobram tanto assim? Bom a mim, pouco importa se casarei na igreja ou no civil, meus pais não se casaram até hoje! Comigo não tem essa cobrança toda. mas eu vi aqui muita coisa legal que pode ser trabalhada. eu não sou tão perseguido por essa tradição toda, talvez por não ser comigo eu não para pra pensar de como seria.

    O que era uma mera pergunta acabou se tornando um recado intimo para mim. Obrigado.

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  2. Oi Marcelo,

    Sobre o casamento, não tive tantos problemas com família em não casar na igreja, exceto uma certa decepção quando comunicamos nossa decisão, e como casei numa quinta-feira (porque era a data que eu e o Eduardo comemoramos aniversário de namoro e noivado), ainda ouvi um "mas não dá pra ser num sábado?", e respondi "se não quiser, não vai". Mas não tive maiores problemas, fiz como quis, quando quis, onde quis.

    O problema é: quando você namora, te cobram um noivado; quando você fica noivo, te cobram o casamento; e quando você casa, te cobram... filhos! E não sou cobrada porque sou casada há três anos e meio, nos primeiros meses de casamento já me cobravam "e os filhos?". Como tinha acabado de começar o curso de Direito, falava "ah, daqui uns cinco anos", mas conforme o tempo foi passando, eu vi que não adiantava nada ficar postergando uma coisa que não aconteceria, e aí eu comecei a ser sincera "não queremos ter filhos".

    É como se eu revelasse uma doença incurável, como se minha vida estivesse terminando por aqui. Acho que, justamente porque para a maioria das pessoas, o fato de não ter filhos te exclui do mundo.

    Os olhares que me lançam quando digo que não quero ter filhos é como se eu fosse irmã do ET Bilu. Ao menos poderia ficar nas entrelinhas o "busquem conhecimento" do Bilu.

    O propósito do blog é este mesmo: um momento para reflexão. Seja sempre bem-vindo!

    Abraço.

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  3. Excelente!
    Teu artigo é exatamente o que penso. Tenho 42 anos e simplesmente não tenho vontade de ter filhos. Não me vejo sendo "pai". Já me falaram que sou egoísta e quando perguntei por que, não houve resposta decente. :-)
    Bom, sobre isso daria pra escrever um monte aqui... teu artigo já basta.

    Marco

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  4. Excelente, excelente e excelente!! Eu não quero ter filhos.. Fico abismada quando as pessoas me dizem: "Quem vai cuidar de vc quando for velha?"... Por favor.. então vou ter filhos com esse pensamento de que os coitados vão ter que cuidar de mim??? Outra coisa.. os filhos terão a vida deles.. não pensem os pais que eles são proprietários dos fihos. Beijos Raquel. (Jane)

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  5. Pois é, mas devemos olhar pra todos os lados e não focar na nossa "verdade absoluta".
    Quando era pequena sempre dizia: Não quero filhos, quero uma casa cheia de gatos e serei uma velhinha solteira..rs Lembro também dos olhares de reprovação...No entanto tive dois filhos e....acreditem ou não, o papel de mãe me faz muito feliz e completa!Leio muitas vezes mães se queixando que não tem tempo para elas, que gravidez é um saco, que filho acaba com a vida da mulher...Pode ser que pra elas sim, ser mãe não é pra qualquer um mesmo, e pena que algumas só descubram isso tarde demais, depois de colocarem filhos no mundo. Admiro quem consegue "sacar" isso antes e optarem por NÃO FILHOS, danem-se o que vão pensar. Tive sorte por apesar de não planeja-los, ama-los e conseguir ser feliz nesse papel, sei que foi um risco e poderia ser uma mãe frustada. E sinto muito se para alguns vai soar como egoísmo, ou se de fato é,não adotaria. Os momentos mais felizes que senti como mãe foi na amamentação.

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