18 de dezembro de 2010

festa no vizinho (ou uma questão de falta de bom senso)

Sexta-feira, por volta das 18h00, começo a ouvir um som muito alto vindo da rua. Em um primeiro momento pensei tratar-se de algum evento ou show nos clubes da vizinhança. Somente quando meu marido chegou, por volta das 20hs, vi que o vizinho da frente - que se mudou há menos de dois meses - estava dando uma festa.

Música eletrônica, música sertaneja, pop, rock, axé, funk. No portão uma lona azul escondia os convidados. E a garagem se tornou uma pista de dança.

O problema é que a festa continuou - em alto e bom som - atravessando a noite. 22hs, 23hs, meia-noite.

Como acredito que o diálogo é fundamental para se manter boas relações - principalmente com os vizinhos -, fui até a casa do vizinho da frente e toquei o interfone. Uma, duas vezes. Aparece uma moça segurando uma criança no colo, e eu pergunto se ela era a dona da casa. "Não". "Tem como você chamar a dona da casa, por favor?". "Só um momento".

Alguns segundos depois, eis que chega uma moça loira "Oi". "Oi, tudo bem? Eu moro aqui na frente e...". "Ah, já sei, é o barulho né". "Isso, é que amanhã eu trabalho, e já passa da meia-noite, não tem como diminuir o volume? Eu não estou conseguindo dormir". "É, eu sei, já passa da meia-noite, mas daqui a pouco a gente acaba porque meia-noite e meia eles tem que ir embora".

Educadamente agradeci, e fui para casa. Como me considero uma pessoa civilizada e tolerante, resolvi esperar essa "meia hora". Quarenta minutos depois o volume do som diminuiu, mas a música só parou depois da 01h do dia seguinte, com a festa sendo finalizada com a música "A Amizade" (quero chorar o teu choro, quero sorrir teu sorriso, valeu por você existir, amigo).

Para quem não conhece, o art. 1.277 do Código Civil brasileiro diz: "O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha".

Contudo, nada disso seria necessário se houvesse um mínimo de bom senso.

Festa em garagem é praticamente festa na rua - não existem paredes para diminuir o som. Parecia que o DJ estava dentro do meu quarto, mesmo de janelas e portas fechadas. Meu martírio só não foi maior porque pelo menos havia bom gosto, e estavam tocando músicas dos anos 80 (adoro!). Só que quando a gente precisa dormir cedo para levantar cedo no dia seguinte, nenhum tipo de música no último volume é legal.

Muitas pessoas trabalham aos sábados. Portanto, para uma sexta-feira, 22hs é o limite do bom senso. Já em um sábado, acredito que estender a festa até meia-noite é o suficiente. E isso sendo uma pessoa bastante tolerante e compreensiva. Afinal as pessoas, dentro de suas residências, não são obrigadas a ouvir a música que o vizinho está ouvindo - que de tão alta impede até de ouvir a televisão -, independentemente de trabalharem no dia seguinte ou não, de ser durante o dia ou noite. Questão de bom senso.

Além de falta de bom senso, é falta de respeito. Alguém que promove uma festa com som alto avançando a madrugada, não tem o mínimo respeito com os demais moradores. E, se mesmo após receberem uma reclamação continuam com o barulho, fica evidente a completa falta de bom senso e respeito. E isso dificulta (e muito) o bom relacionamento entre vizinhos.

Mas como a lei da ação e reação não falha, hoje, antes das 07hs, um senhor começou a recolher as latinhas das sacolas deixadas na lixeira depois da festa, e amassar, uma a uma. Fez isso até às 08hs da manhã. Bem na frente da casa, embaixo da janela do quarto do casal.

13 de dezembro de 2010

cutucando

Uma pessoa sem objetivos geralmente fica perdida. É como uma folha levada ao vento, sem saber pra onde ir. Onde cair, fica.

Você precisa de uma MOTIVAÇÃO pra viver. Qual é a sua motivação? O que te inspira a levantar todos os dias e viver um novo dia? Qual é o seu objetivo de vida?

Veja bem, você não precisa ter uma vida planejada, até porque, não somos donos do Universo, e nossas opiniões mudam constantemente. Mas precisamos ter objetivos diários, mensais, anuais, em cinco, dez, quinze anos. Alguma coisa pra correr atrás, que nos impulsione para seguir em frente. E aí pode ser um curso, um carro, uma casa, um casamento, um filho, uma família, um cachorro, uma viagem, um projeto... sei lá!

Mas para quê você trabalha todos os dias? Para quê você junta dinheiro? Para quê você deixa de fazer as coisas que tem vontade, seja por causa da sua mãe, do seu pai, ou do seu namorado? Para quê você está aqui, no planeta Terra, neste ano? Para onde você vai? Para onde você quer ir? O QUE VOCÊ QUER FAZER DA SUA VIDA?

São perguntas que SÓ VOCÊ pode responder. Busque isso dentro de você. Tenha coragem de se perguntar: o que eu quero? Tenha coragem de ouvir as respostas vindas do seu coração/ alma/ subconsciente/ âmago ou o que quer que você queira chamar. As respostas estão dentro de você. Permita-se OUVIR.

E o mais importante: não tenha medo de se questionar, de questionar o mundo, de questionar as culturas, de questionar a vida que você vive.

Mais uma vez, O QUE VOCÊ QUER?

Repetindo: o que VOCÊ quer?

Nada além disso interessa! Não interessa minha opinião, a opinião da sua mãe, do seu pai, do seu namorado, dos seus irmãos.

Interessa a SUA opinião. Os SEUS desejos. Os SEUS sonhos.

Viva os seus sonhos, os seus desejos, tenha a sua opinião.

Você sabe até onde é VOCÊ, e até onde são os outros? Você sabe o que você realmente gosta, e o que você gosta por causa dos outros? Você sabe o que é a sua opinião, e o que você fala que é a sua opinião, mas está falando pelos outros? Você sabe se a música que você escuta é porque você gosta, ou é influência do gosto de outra pessoa? Que música você ouviria sozinho?

Volte-se para você, para o seu interior. Se permita descobrir, descobrir quem você é, do que você gosta, o que você tem vontade!

Faça o que você tem vontade!

Preocupe-se em agradar VOCÊ mesmo!!! Sim, seja um pouco egoísta e pense em você primeiro. Ou você tem pretensão de ser Madre Teresa de Calcutá?

Fale o que você pensa, o que você tem vontade! Diga o que você quer! Grite, xingue, esperneie, mas não violente você mesmo em prol dos outros!!!

Grande parte da sua angústia e ansiedade é estar vivendo uma vida sem saber pra onde vai, por que chegou até aqui. É não saber mais do que você gosta, quem você é. São tantas opiniões, desejos e vontades dos outros, que hoje você não sabe mais quem é você, não é mesmo?

Sugiro um primeiro objetivo: se encontre neste ano que se inicia. Permita-se isso. Permita-se QUESTIONAR TUDO o que você está vivendo hoje, tudo o que está à sua volta.

Permita-se ENXERGAR. No fundo, você sabe. Permita-se deixar isso tudo vir à tona!

Preocupe-se com você, com a sua felicidade. Esqueça os outros.

De repente você se dá conta de que ninguém vai deixar de viver por você, nem seu pai, nem sua mãe, muito menos seu namorado, amigos, irmãos.

Permita-se VIVER. Permita-se DESCOBRIR. Permita-se SER VOCÊ!

Você não precisa agradar ninguém, apenas VOCÊ. Aí você encontra a paz de espírito que tanto procura, longe da angústia e ansiedade que tomam conta.

Que tal ler tudo isso mais uma vez e refletir um pouco sobre cada parágrafo???

Vale até pegar uma folha e escrever tudo que passa na sua cabeça agora. Põe pra fora!!!

REFLITA!

Seja feliz! Sempre!

Busque a felicidade! A sua felicidade!

Permita-se isso!

2 de dezembro de 2010

a culpa é de todos, menos minha

Quando analisamos nossa vida e nossa situação atual, as dificuldades que passamos, as conquistas, os sonhos realizados, frequentemente atribuímos os fatores que levaram ao sucesso a nós mesmos; e os fatores que nos levaram ao fracasso... ah, a culpa é sempre de alguém, menos nossa.

E até Deus entra na lista dos culpados. Se tudo está indo mal, é porque Deus quis. Uma prova de Deus, que eu não entendo muito o motivo, porque sou somente uma vítima dele. Ou então estou enfrentando um karma de vidas passadas. O fato é que a culpa não é minha. É o universo que conspira pra que tudo dê errado na minha vida. Mas eu não contribuí em absolutamente nada para isso, sou somente uma vítima do universo. Ah, e como sofro!!! Coitadinha de mim, tão injustiçada e infeliz!!!

Se tudo vai bem, é porque Deus me deu forças para chegar aqui. O mérito é meu. Deus apenas me ajudou. Ou então é o fruto que estou colhendo de minhas boas ações nas minhas vidas passadas. O mérito continua sendo meu. Jamais dos outros.

A equação é simples: deu errado? A culpa é do outro. Deu certo? O mérito é meu. Simples, não?

E aí vale colocar a culpa nos pais porque sempre me deram tudo/ porque nunca me deram nada; porque não me deixaram trabalhar aos 18 anos/ porque me obrigaram a trabalhar aos 18 anos. Colocar a culpa nos filhos pelo casamento que não deu certo/ por ter casado; por ter responsabilidades/ por não ter companhia na velhice.

Além de sempre ter um culpado pelos meus fracassos, não consigo esquecer esses momentos catastróficos da minha vida. E aí fico remoendo aquele vestido que minha mãe costurou e que eu odiei e fui obrigada a usar no aniversário de 15 anos; aquela tia chata solteirona que tive que dividir o quarto; aquela discussão com a minha filha porque vendi o carro - e se até hoje não comprei outro, a culpa é dela!

Isso tudo porque é muito difícil encarar a realidade e assumir que a vida é feita de escolhas - nossas, e somente nossas. Diariamente eu escolho ser feliz ou ficar deprimida. Eu escolho remoer o passado ou seguir em frente. E os fracassos e os sucessos dessa vida são resultado das minhas escolhas, da maneira como eu encaro a vida.

Todo mundo erra, todo mundo passa por dificuldades, todo mundo tem um episódio triste para contar da sua vida. Só que ou a gente passa por cima de tudo isso e segue em frente, ou fica parado no tempo, se lamentando, sofrendo, sendo a eterna vítima do mundo. Ah, como sofro!

As pessoas se afastam de mim, e não sei o motivo. Tenho tantas histórias tristes pra contar... Quando me perguntam "tudo bem?", sempre inicio um triste relato de minha triste vida. Não sei por quê ninguém mais me pergunta "tudo bem?". Ah, como sofro! Ninguém quer conversar comigo!!!

Por outro lado, existem pessoas que a gente sabe das dificuldades que passam, e estão sempre com um sorriso no rosto, uma super energia positiva, tiram forças sei lá de onde e quando você pergunta "tudo bem?", a pessoa sempre responde "tudo, e você?".

Responda sinceramente: você prefere estar perto de qual dessas pessoas? Daquela que está sempre com uma história triste pra contar sobre sua vida, ou daquela que está sempre com um sorriso no rosto?

Acredito que a gente atrai tudo de bom e tudo de ruim na nossa vida. Se as coisas não vão muito bem pra você, avalie como você encara a sua vida. Descubra o que você está atraindo para você mesmo.

Aprenda com os seus erros, se fortaleça nas dificuldades, e conte seus episódios tristes como exemplo de superação: superei, passou, já foi. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima!

A vida a gente vive agora. Quem fica parado no tempo já morreu.

20 de novembro de 2010

filhos, por que tê-los?

O que motiva as pessoas a quererem ser pais?

Algumas amigas sonhavam ser mães. Desde crianças, quando questionadas sobre o que queriam ser quando crescessem, respondiam "mãe".

Eu, por outro lado, nunca gostei de brincar de casinha, odiava aquelas bonecas "bebezão". Ser mãe era uma coisa bem distante. Meu objetivo era casar com o príncipe William, ser uma princesa e viver uma vida de Barbie, com altas aventuras, intrigas, suspense, romance. Nada de filhos.

Não sou um monstro que come criancinhas no almoço, mas até hoje não quero ter filhos. E quando digo isso, me olham indignados, com ar de reprovação, e me perguntam se é por traumas de infância, se é por causa da relação com meus pais ou por causa da minha família de pais separados e meio-irmãos. Enfim, tem que ter um motivo, não posso simplesmente não querer ter filhos, da mesma forma que não quis casar na igreja (e não casei).

Outros dizem "bobagem, você é nova, um dia você vai querer ter filhos". Será? Não sei. Claro que a gente sempre pode mudar de opinião, mas até hoje não sinto vontade de casar de véu e grinalda, e não me arrependo da maneira como casei (cerimônia no civil de manhã + jantar para a família à noite). Na verdade, se fosse hoje em dia, acho que manteria apenas a cerimônia no civil, e excluiria o jantar para a família à noite.

O fato é que as pessoas não admitem que alguém simplesmente não queira ter filhos.

A grande maioria das pessoas tem filhos simplesmente porque "é assim que tem que ser": a gente nasce, cresce, casa, tem filhos e morre. Simplesmente vão no "ritmo" da vida, sem parar para questionar absolutamente nada do seu dia-a-dia, do que se transformou a sua vida. Apenas aceitam passivamente que é assim que tem que ser. E isso inclui trabalho, família, rotina, e filhos, claro.

De um lado, temos a sociedade que nos cobra o pacote "casamento + filhos". De outro lado, algumas religiões que pregam que não existe o instituto familiar sem a existência dos filhos. Coitados daqueles que são estéreis, condenados a viver uma vida sem constituirem uma família - a não ser que adotem, coisa que não passa pela cabeça da maioria de nós, egoístas narcisistas, afinal, o meu filho tem que levar o meu sangue.

Marcio de Almeida Bueno retrata muito bem esta linha de raciocínio:

Parece que só tendo um filho é que muita gente se sente parte do mundo, quase um ato patriótico de construção de população, como se isso realmente fosse necessário. Se o objetivo é criar uma outra pessoa, educar, dar meios para ser um adulto, que se tenha um mínimo de pena das crianças à espera de adoção, no lugar do egoísmo frouxo e ‘boa família’ que habita corações e mentes de casaizinhos socialmente ingênuos.

O maior ato de amor, nessa farsa chamada ‘a instituição da família’, seria trazer para dentro da própria casa uma pessoa que não saiu de um útero-forno de padaria após mistura de ingredientes próprios. Que diferença faz para o sentimento? Sinto cheiro de egoísmo assando na cozinha.¹

O ato de "ter filhos" é, na verdade, muito egoísta, pois se pensa em realizar um desejo próprio, numa satisfação pessoal. Muito pouco ou quase nada se pensa na criança que vai nascer e na vida autônoma que ela terá direito (ou pelo menos deveria ter direito). Na verdade, segundo Freud, "a criança deve satisfazer os sonhos e os desejos nunca realizados dos pais, tornar-se um grande homem e herói no lugar do pai, ou desposar um príncipe, a título de indenização tardia da mãe".¹

Com tantas crianças abandonadas pelo mundo, o cúmulo do egoísmo é querer ter seu próprio filho. Afinal, se a motivação para se ter filhos vem da vontade de cuidar e criar alguém, essa criança não precisa ter seu sangue, seus genes. Basta ser uma criança desprovida de cuidados e carinho.

Mas a verdadeira motivação não é o outro; é satisfazer a si próprio. Quero ter um filho que se pareça comigo, não quero colocar um estranho dentro da minha casa, alguém que não sei nem de onde veio.

Ao invés de buscar a adoção, cada vez mais as pessoas que não podem ter filhos buscam os tratamentos de fertilidade, tão comuns nos dias atuais, com o propósito de realizar o sonho de pais que não podem gerar seus filhos de maneira natural. Como resultado, uma série de gêmeos e múltiplos são gerados, muitos não resistem à gestação, outros nascem prematuros e não sobrevivem, e alguns dos sobreviventes apresentam defeitos congênitos. Mais uma prova de que os pais pensam apenas em si e não medem as consequências na vida dessas crianças.

Voltemos à questão inicial: O que motiva as pessoas a quererem ser pais? Cada vez mais me convenço de que se trata de uma realização pessoal, de um ato egoísta e narcisista, e nada mais. Afinal, em um mundo com mais de seis bilhões de pessoas, ter filhos para a preservação da espécie é uma justificativa um tanto quanto ultrapassada.


¹ BUENO, Marcio de Almeida. Filhos: cheiro de egoísmo assando na cozinha. Disponível em: http://www.anda.jor.br/2010/02/07/filhos-cheiro-de-egoismo-assando-na-cozinha/. Acesso em 20 nov. 2010.

² FREUD, Sigmund (1914). À Guisa de Introdução ao Narcisismo. In: Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 2004. p.110.

pais: crianças generalizadas

Em um seminário sobre as psicoses infantis, em 1968, o psicanalista francês Jacques Lacan disse que, no futuro, todos seriam "crianças generalizadas".

Vemos atualmente muitos pais que não amadureceram, continuam eternos adolescentes. Muitos acabam de certa forma "competindo" com os filhos, e muitos acabam delegando suas responsabilidades para os próprios filhos, por exemplo, deixando aos filhos a tarefa de orientar os irmãos.

Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você.
(Legião Urbana)

Contudo, vale ressaltar que o modelo tradicional de família do passado seguia apenas um padrão, onde mulheres casavam cedo, tinham filhos cedo, isso porque já eram preparadas para tais tarefas desde o nascimento. Na verdade, não havia liberdade em se descobrir, em escolher um modo de vida, tanto para homens quanto para mulheres, ainda que a questão da escolha fosse mais difícil para as mulheres. Tudo já estava pré-estabelecido, e aqueles que questionavam tal modelo ou buscavam um modo de vida diferente, eram repreendidos.

Acredito que um ponto fundamental e que é urgente em nossa sociedade atual é o questionamento do antigo instituto familiar "padrão", que ainda serve como modelo nos dias atuais, apesar de uma série de "novas" famílias contemporâneas monoparentais, homoparentais, clonadas, desconstruídas, recompostas. A grande maioria das pessoas casam e tem filhos, mas não sabem o motivo, apenas o fazem porque "é assim", porque há um costume, uma cobrança da sociedade em se manter esse padrão. Casais tem filhos mas não o fazem porque querem, mas porque "é assim que tem que ser". E aí temos como resultado pais-crianças, que não se prepararam para a educação do filho e as demais preocupações e responsabilidades vindas com essa nova vida.

Em contrapartida, aqueles que optam por não ter filhos sofrem uma grande pressão da sociedade em geral, como se o único propósito da união entre duas pessoas, ainda nos dias atuais, seja somente a reprodução. E aí, aqueles que não suportam essa pressão, acabam "consentindo" à essa demanda externa de se seguir o antigo "padrão", têm filhos, mas acabam delegando a responsabilidade da criação para os avós, escolas, e sociedade em geral. Tal atitude prejudica não só aos pais, que, ainda crianças, não estão preparados para tal responsabilidade, mas principalmente às crianças, que crescem em um ambiente onde não encontram uma base sólida para formação de sua personalidade, sem exemplos e modelos, onde muitas vezes não se identifica, não é querida, é deixada de lado.

Enquanto isso, homossexuais reivindicam o direito ao casamento e à adoção de crianças, talvez porque, justamente, por já não seguirem e não se enquadrarem no "modelo" tradicional imposto pela sociedade, têm melhores condições de planejarem e se prepararem para a constituição de uma família que, ainda que diferente, segue o antigo modelo tradicional.

18 de outubro de 2010

a dura realidade da comunidade de Castelhanos

Casas de pau-a-pique, fogão a lenha, falta de esgoto, de água encanada, de energia elétrica. Pessoas sem o mínimo saneamento básico.
Foto: Raquel Soldera
Não estamos falando de décadas passadas, nem de nenhuma cidade no interior do Nordeste. Trata-se de uma comunidade caiçara na Praia dos Castelhanos em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, que vive sem o mínimo necessário para que tenham atendido o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, inscrito no inciso III, art. 1º, da Constituição Federal brasileira.
Foto: Raquel Soldera

 O acesso à praia é feito por jipes e veículos tracionados, numa trilha de 27km no lado leste da ilha, ou por mar. A praia dos Castelhanos, antigamente usada como refúgio de piratas segundo informações no site da prefeitura, hoje é considerada um refúgio para o stress e o agito de grandes cidades, tendo como visual o imenso mar com ondas agitadas, a enorme faixa de areia branca na praia que cobre seus 2 km de extensão, os dois riachos de água transparente, e uma enorme cachoeira próxima dali.

Um grupo de jipeiros do ABC paulista, liderado por Carlos Alberto Valverde, distribuiu no dia 16 de outubro cestas básicas, roupas e brinquedos para as 37 famílias que vivem na comunidade. O momento mais emocionante, no entanto, foi a entrega de um par de muletas para o senhor Benedito, de 88 anos, que perdeu uma perna em decorrência do diabetes.

Foto: Raquel Soldera
O senhor Benedito não é o único que perdeu uma perna por causa do diabetes. O atendimento à saúde dos moradores é feito através de uma equipe médica que vai à região de lancha, o que, no entanto, não ocorre com frequência.

Os moradores da Praia dos Castelhanos vivem em situação extremamente precária. A prefeitura de Ilhabela entregou 10 filtros de água em novembro de 2009, e 25 em julho deste ano. Nesses locais não existe estação para tratamento de água, e segundo dados da própria prefeitura, cerca de 70% das doenças vem da água.

Foto: Raquel Soldera
Em outubro a prefeitura anunciou que conseguiu dois telefones públicos para a comunidade, e o diretor de Meio Ambiente, Sérgio Badito, acompanhou os técnicos da Telefônica, que levaram até Castelhanos os postes onde passarão a rede de telefonia. O próximo passo é a instalação dos orelhões. “Temos lutado para levar mais infraestrutura às comunidades tradicionais caiçaras, desde melhorias nas escolas até a instalação de equipamentos, como os telefones públicos”, disse o prefeito Toninho Colucci.

Educação é outro ponto que chama a atenção na comunidade. Ou melhor, a precariedade de educação. Segundo informações dos moradores, existe apenas uma escola multigraduada de 1ª a 8ª série, e somente uma professora para ensinar todas as crianças da comunidade.

Foto: Raquel Soldera
Apesar das constantes e já antigas reclamações dos moradores sobre as condições da estrada que dá acesso à praia e, consequentemente, à comunidade, as melhorias de infraestrutura tão solicitadas finalmente poderão ser atendidas. Isso porque, segundo o prefeito Toninho Colucci, a praia dos Castelhanos "é um dos principais pontos turísticos da cidade e por isso necessita de melhorias em infraestrutura turística". Assim, a Estrada dos Castelhanos será a primeira estrada parque regulamentada do país, mas não visando o bem-estar da comunidade, e sim a expansão do turismo da região.

Aliás, os desafios das comunidades caiçaras do município de Ilhabela frente ao turismo foi tema de um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos, que pode ser acessado aqui. Paulo Noffs também realizou um estudo das mudanças culturais e a cultura caiçara, pela Universidade de São Paulo, e concluiu que o que diferencia a Baia dos Castelhanos do restante do Litoral Norte é a condição de semi-isolamento em que ela se encontra, neutralizando, por enquanto, a forte pressão do setor imobiliário para a implementação de empreendimentos turísticos. De resto, o processo de valorização do espaço e a transformação da terra em mercadoria já estão postos em toda a Baia dos Castelhanos.

Foto: Raquel Soldera
Além da distribuição de alimentos, roupas e brinquedos, me encarreguei de distribuir carinhos e afagos aos cerca de 80 cachorros que vivem na comunidade, um mais simpático que o outro. E, claro, da próxima vez, também levarei sacos de ração.

Foto: Raquel Soldera
Os moradores relataram que é comum filhotes serem abandonados na região, mas felizmente são adotados pela própria comunidade. Contudo, muitos animais morrem devido à picada de cobra. Na estrada de Castelhamos encontramos um cachorro morto, sem qualquer indício de atropelamento ou maus-tratos, o que nos levou a concluir que provavelmente foi picado por uma cobra.

Se o atendimento à saúde dos humanos já é precário, imagine o atendimento aos animais. Assim como os adolescentes e adultos do local têm uma série de filhos por não haver qualquer orientação ou método contraceptivo disponível, não há qualquer preocupação neste sentido para os animais, o que aumenta cada vez mais a população de cachorros na comunidade.

Foto: Raquel Soldera
Sem dúvida alguma, a praia dos Castelhanos é um dos lugares mais bonitos de Ilhabela. Tanto que os moradores não são apenas os nascidos no local; existem pessoas que optaram por viver em Castelhanos, vindas inclusive da capital paulista, atraídas por uma vida simples, mas repleta de belíssimas paisagens naturais.

No entanto, o que percebemos é que paga-se um preço muito alto para ter como quintal toda a riqueza natural do lugar, já que as condições de infraestrutura e saneamento básico são extremamente precárias no local.

Foto: Raquel Soldera
As doações entregues pelos jipeiros do ABC paulista sem dúvida alguma contribuíram para uma melhoria mesmo que temporária da situação dos moradores. No entanto, cabe ressaltar que solidariedade não significa apenas doar roupas, alimentos, brinquedos ou dinheiro. Solidariedade é, principalmente, lutar pelos direitos que são negados a essas pessoas que, apesar de reivindicarem, não tem suas necessidades básicas atendidas por serem representadas por apenas dois eleitores votantes na comunidade.

Cabe ressaltar que, antes de eleitores, somos cidadãos; e, antes de sermos cidadãos, somos seres humanos, cujos direitos básicos são protegidos tanto pela nossa Carta Magna quanto pelos tratados internacionais que o Brasil é signatário.

É cada vez mais evidente o egoísmo que rege as relações humanas, onde questões econômicas são mais importantes do que a vida de seres humanos e a proteção dos animais e do meio ambiente.

Felizmente, apesar de tudo, ainda encontramos pessoas regidas pelo amor e pelo bem universal e que procuram contribuir para melhorar a vida daqueles que sequer conhecem.


Parabéns a todos que fazem a sua parte neste mundo louco que vivemos atualmente. E se você quiser contribuir com esta comunidade, envie um e-mail para raquel.soldera@gmail.com.

Foto: Raquel Soldera
Se cada um fizer a sua parte, com certeza viveremos em um mundo melhor.

13 de outubro de 2010

devastando o Parque Estadual da Serra do Mar

É muito triste ver a devastação na Mata Atlântica na região. Tudo por causa da construção de dois gasodutos da Petrobras, que vai eliminar 69,72 hectares de vegetação da Mata Atlântica do Parque Estadual da Serra do Mar. Pra se ter uma ideia do tamanho do impacto, um hectare equivale a um campo de futebol.

As obras começaram em abril deste ano e vão cortar os municípios de Santo André, São Bernardo, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Os dutos, que receberam o nome de Gasan 2 e Gaspal 2, possuem 38 km de extensão.

Dutos em área devastada (Foto: Raquel Soldera)
De acordo com a Secretaria de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, os gasodutos Gasan II e Gaspal II, têm como objetivo elevar a flexibilidade do sistema de gasodutos da Petrobras, facilitando o escoamento do insumo entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

Por cortar uma área considerada sensível, o gasoduto enfrentou dificuldades para obter a licença prévia. Foram, ao todo,18 meses de espera, o que atrasou o início das obras, previsto inicialmente para setembro de 2009.

A empresa estatal afirma que vai compensar o desmatamento de quase 70 hectares com a plantação de 131 hectares, que será realizada em área ainda a ser indicada, durante a fase de implantação do empreendimento, nos municípios por onde passarão os dutos. Vale lembrar que a compensação ambiental do Rodoanel, que desmatou 297 hectares, até agora não foi feita. Imagine quando (e se) esta compensação ambiental dos gasodutos da Petrobrás será feita.

Além disso, dos cinco municípios do ABC por onde passarão os gasodutos da Petrobras, apenas Ribeirão Pires soube informar quais as compensações ambientais previstas para a destruição das áreas de preservação ambiental, segundo divulgação do jornal Metro ABC.

O Ministério Público do Estado afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que irá interferir na construção apenas se houver denúncias de irregularidades, o que não aconteceu. A obra da Petrobras possui licença ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, apesar das pilhas de árvores nativas cortadas.

Pilhas de árvores nativas cortadas (Foto: Raquel Soldera)
De acordo com a Petrobras, a obra possui Licença Ambiental de Instalação e Autorização para Supressão de Vegetação de Intervenção em Áreas de Proteção Permanente emitidas pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), além do EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e do Rima (Relatório de Impacto ao Meio Ambiente).

A licença ambiental veio, porém, sob os protestos de ambientalistas da região. Virgílio Alcides de Farias, membro do MDV (Movimento em Defesa à Vida), participou das audiências públicas realizadas em 2008 na região representando o Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente). O ecologista afirma ter apresentado à Petrobras outro trajeto para os gasodutos, que desviava da reserva ambiental. “O projeto, porém, exigiria desapropriações. Não acompanhei todo o processo, mas a licença ambiental acabou sendo dada para a proposta que passava pela mata Atlântica”, disse.

Segundo o professor de Gestão Ambiental e Sustentabilidade da Universidade Metodista de São Paulo, Vicente Manzioni, a compensação ambiental não recupera o desmatamento. “Nunca compensa. O principal impacto do gasoduto é na vegetação, na fauna e na flora. Eles são obrigados a plantar uma quantidade maior e isso normalmente acontece em uma área próxima à que foi desmatada, mas nunca é a mesma coisa. A devastação não se recupera e é um ponto importante que tem que ser considerado”, disse.

Área devastada próximo à Paranapiacaba (Foto: Raquel Soldera)
Em 2006, um estudo do impacto ambiental da construção de um gasoduto da Petrobras no Parque Estadual da Serra do Mar, encomendado pela própria Petrobras, apontava que 40 espécies de aves e 21 de mamíferos ameaçados de extinção podem sofrer as conseqüências de ter seu habitat invadido pela obra. A qualidade da água também pode ser prejudicada, já que há 98 travessias por rios previstas na construção.

Na época, segundo informações do G1, o governo paulista, no entanto, alegava que o laudo estava incompleto. “A região toda é muito delicada, há mananciais, matas fechadas”, afirmou Eduardo Hipolito, diretor do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema). Hipolito temia que as estradas construídas para a manutenção do gasoduto fossem utilizadas por caçadores e desmatadores.

É óbvio que o impacto na fauna e na flora da região é imenso. O fato é que, infelizmente, estudos são manipulados de acordo com interesses econômicos e políticos. E aí, temos que presenciar a destruição da natureza, calados, porque tudo está "dentro da lei".

Prova disso é que a população local recorreu à Fundação SOS Mata Atlântica para "denunciar" a devastação na região, e ficaram indignados quando receberam como resposta um "não podemos fazer nada". Por isso ressaltamos a importância de escolhermos bem nossos representantes. Para que fatos como esse sejam evitados.

Aproveitando, fiquem de olho no novo Código Florestal, que está em fase de aprovação, para que cenas como essa não se tornem ainda mais comuns nas nossas florestas.

19 de julho de 2010

do emprego novo

Eis que depois de um processo seletivo angustiante, dinâmicas, entrevistas e várias desculpas esfarrapadas no emprego antigo, finalmente você recebe uma ligação dizendo que você foi selecionado para a vaga.

Comemoração, e aquela sensação de liberdade, de um novo começo, novos ares, pessoas novas, rotina nova, enfim, um mundo novo e desconhecido te espera neste novo emprego.

Primeiro dia. Aquele frio na barriga, e a sensação de que você não vai dar conta de tudo: nomes, atividades, planilhas, telefones. Tudo novo. Tudo diferente. Enfrentar o desconhecido é excitante, mas, no fundo, você não vê a hora que essa nova rotina que o espera vire finalmente uma rotina.

Os dias passam, e de repente toda aquela euforia e ansiedade começa a se tornar praticamente insuportável.  E cada vez mais você tem uma única certeza: está no lugar errado. É muita coisa nova, muita coisa diferente, e você não vai dar conta de tudo isso.

A ansiedade se confunde com o desespero. Você não consegue mais dormir à noite, despertado por algum prazo, alguma atividade inacabada, alguma coisa que veio te assombrar no final de semana.

Você entra em pânico. Decide largar tudo, sair correndo, se esconder em casa. Ah, lar doce lar. Mas como? Você tem contas a pagar, dívidas, uma carreira pela frente. Qual desculpa vai inventar para aquela selecionadora chata, querendo saber por que você ficou tão pouco tempo na empresa. Se disser a verdade, provavelmente nunca mais será contratado. Afinal, quem quer contratar alguém que entrou em pânico no emprego novo?

Nessas horas, nenhum amigo te consola ou te apóia. Todos dizem que já passaram por isso, e que com o tempo, passa. Você não quer ouvir isso. Você não quer pensar no futuro, porque ele é muito longínquo, porque ele é aterrizador. Você só queria alguém pra te dizer "cai fora, larga tudo", mas ninguém diz isso. Todo mundo diz pra você suportar, dar mais um tempo. Fácil falar. Não são eles que convivem com seus monstros, seus medos e aquelas planilhas imensas.

Você decide abrir o jogo e ir embora. Buscar um emprego mais parecido com o anterior, onde aqueles monstros não te encontrem, nem te assombrem. E você manda currículos, participa de processos seletivos, e surgem novos empregos. Mas, em casa um deles, um monstro novo aparece.

Para cada emprego novo, um monstro novo. Alguns dão mais medo que outros, mas todos estão lá, te esperando naquele ambiente desconhecido. E aí, ou você enfrenta essa realidade, ou pode pensar em mudar de planeta, porque eles sempre irão te encontrar.

2 de julho de 2010

e silenciam as vuvuzelas

E o Brasil saiu da Copa. Finalmente silenciam as vuvuzelas. Meus ouvidos (e os de meus cachorros) agradecem.

Muitas pessoas a essa hora já arrancaram as bandeiras das portas de suas casas e de seus carros. Patriotismo no Brasil só existe de quatro em quatro anos. Agora, só em 2014.

As emissoras de televisão mostram imagens de crianças chorando. Até compreensível. São crianças. Difícil é aturar imagens de marmanjos aos prantos, já que a gente não vê essa mesma cena enquanto os governantes roubam nosso dinheiro, enquanto crianças morrem de fome, enquanto pessoas morrem na porta de hospitais por falta de atendimento médico.

Na Holanda, o povo comemora a vitória. O jogo acabou perto das 13h00, e as imagens mostradas às 14h00 revelaram que não havia mais ninguém no centro de Amsterdã comemorando a vitória. O brasileiro se espanta com uma comemoração tão rápida, já que aqui, mesmo com a derrota, ainda se vêem imagens de shows no centro das principais cidades brasileiras. Talvez seja isso que nos distancie de um país de primeiro mundo. Aqui, comemoraríamos a vitória até domingo. Lá, o povo volta ao que realmente importa.

Acorda, Brasil! Vamos parar de lembrarmos a nossa pátria amada somente em Copa do Mundo. Vamos nos importar e nos unir pelo que realmente importa! Esse é ano de eleições! Vista a camisa, pendure a bandeira na porta da sua casa, no seu carro, e vamos, juntos, mudar esse país.

Que a gente tenha orgulho de ser brasileiro 365 dias por ano. Todos os anos. E vamos fazer muito barulho contra a corrupção que impera neste país!

=========<() PÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ!

19 de junho de 2010

crucificai-vos uns aos outros

A morte do autor português José Saramago deixou um grande vazio no meio literário. Mas o que mais chamou a atenção foi a quantidade de mensagens em referência ao ateísmo de Saramago. Em sua maioria, maldizendo o autor.

Acho ridículo que as pessoas, em pleno século XXI, tenham esse tipo de preconceito. Um homem acreditar em determinada religião - ou não acreditar em nenhuma -  não o torna melhor ou pior do que ninguém. Não é a religião que define caráter, índole, ética, respeito ou o que quer que seja. Mas esses atributos são facilmente identificáveis de acordo com a conduta diária das pessoas - independentemente de religião.

O fato é que o que se vê atualmente é uma porção de pessoas que se intitulam "cristãos" apedrejando e crucificando outras pessoas, seja pela sua crença, seja pela sua opinião, seja lá pelo que for. Como se essas pessoas fossem o modelo e o exemplo do que é certo e do que é errado, se julgam no direito de julgar aos demais.

O paradoxo disso tudo é que, no fundo, parece que justamente a maioria dos cristãos se esquece de praticar o "amai ao próximo" no seu dia-a-dia. E não perdoam. Nem a morte.

18 de junho de 2010

vida encefálica

Ultimamente as questões e discussões que envolvem o aborto estão cada vez mais na internet. Além da descriminalização do aborto, discute-se também a "lei do nascituro", conhecida como "bolsa estupro"¹.

Grande parte do foco da discussão gera em torno da definição do momento em que a vida se inicia. Para alguns, o início da vida ocorre no momento da concepção; para outros, no momento em que há a formação do cérebro; e ainda existem aqueles que defendem que a vida começa no momento do nascimento.

O fato é que, apesar de ainda discutirmos o momento em que a vida se inicia, parece haver certa concordância, ou melhor dizendo, aceitação, sobre o momento em que a vida termina: quando ocorre a perda definitiva e irreversível das funções cerebrais relacionadas com a existência consciente. Ou seja, quando ocorre a "morte cerebral". No Brasil, a avaliação da morte cerebral está normatizada pela Resolução 1.480/97 do Conselho Federal de Medicina.

Ora, se uma pessoa cujo cérebro parou de funcionar, ainda que seus órgãos estejam em funcionamento, é declarada morta, significa que não existe vida sem um cérebro em funcionamento. Logo, seguindo este raciocínio, se a vida cessa com a morte encefálica, não pode ser considerada antes da formação do tronco cerebral.

Portanto, ainda é um paradoxo considerar o início da vida o momento da concepção, quando se considera seu fim o momento em que não há mais atividade cerebral.

Nesse sentido foi o voto do ministro Carlos Ayres Britto, relator da ADI 3510, sobre pesquisas com células-tronco embrionárias. "No seu entender, o zigoto (embrião em estágio inicial) é a primeira fase do embrião humano, a célula-ovo ou célula-mãe, mas representa uma realidade distinta da pessoa natural, porque ainda não tem cérebro formado".²

Sobre o início da vida, o ministro Marco Aurélio ressaltou que “o início da vida não pressupõe só a fecundação, mas a viabilidade da gravidez, da gestação humana”, e “dizer que a Constituição protege a vida uterina já é discutível, quando se considera o aborto terapêutico ou o aborto de filho gerado com violência”, concluindo que “a possibilidade jurídica depende do nascimento com vida”.²

Ainda há muito o que se discutir acerca do início da vida. Inclusive, essa decisão do STF abre espaço para se questionar a manutenção da criminalização do aborto.

No entanto, muitas pessoas preferem continuar criminalizando mulheres que optam pelo aborto, ao invés de exigir penas mais severas para aqueles que tiram a vida de pais, mães e filhos, membros de famílias já constituídas. Um assassino não é responsável somente pelo fim da vida de uma pessoa, mas também condena a uma vida repleta de tristeza para aqueles que tiveram suas vidas atingidas pela brutalidade da morte de um ente querido.

Enquanto o Estado não puder garantir a inviolabilidade da vida e a dignidade da pessoa humana de todos os cidadãos, não poderá garantir a vida de um feto; enquanto o Estado não puder garantir que as mulheres não sejam violentadas, não poderá exigir que uma mulher mantenha uma gravidez até o fim. E, um Estado que permite pesquisas embrionárias e já não garante a vida uterina ao considerar o aborto terapêutico ou o aborto de um feto gerado em caso de estupro, não pode punir uma mulher que optou pelo aborto.

Referências:
¹ Secretaria de Políticas para as Mulheres. Direito ao aborto em caso de estupro está ameaçado. Disponível em: http://www.sepm.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2010/05/direito-ao-aborto-em-caso-de-estupro-esta-ameacado. Acesso em 18 jun. 2010.
² Supremo Tribunal Federal. STF libera pesquisas com células-tronco embrionárias. Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/cms/vernoticiadetalhe.asp?idconteudo=89917. Acesso em 18 jun. 2010.

1 de junho de 2010

por que a defesa dos animais incomoda tanto?

É impressionante como muitas pessoas se incomodam com a defesa pelos direitos animais. Sempre tem alguém disposto a dizer que "existem coisas mais importantes" e indicar diversas áreas que necessitam de atuação, ao invés da preocupação com os animais.

O curioso é que essas pessoas ou não fazem nada pelas coisas que julgam mais importantes, ou têm algum envolvimento com práticas e atividades que ferem os direitos dos animais.

Basta analisar aqueles que tanto se sentem incomodados com a defesa e a preocupação pelos direitos animais, e seus argumentos.

Baleeiros japoneses e caçadores de focas canadenses dizem que têm o "direito" de matar os animais.

Donos de circos e de parques aquáticos dizem que têm o "direito" de maltratar e explorar os animais nos espetáculos, fazendo com que os animais aprendam truques que nada têm a ver com o seu instinto, através de choques elétricos, pauladas e chicotadas.

Galistas dizem que têm o "direito" de explorar e maltratar animais através das rinhas de galos. O mesmo se aplica para aqueles que promovem rinhas de cães e pássaros, e aqueles que frequentam esses lugares, que também dizem ter esse "direito".

Donos de zoológicos dizem que têm o "direito" de manter os animais trancafiados em jaulas minúsculas, submetidos a uma exposição integral àquelas pessoas que acreditam ter o "direito" de ver os animais selvagens de perto, e ficam gritando para que acordem ou façam alguma micagem.

Toureiros e peões dizem que têm o "direito" de promover a crueldade e os maus-tratos a animais nas touradas e nos rodeios. E os frequentadores dizem que têm o "direito" de assistir a tudo isso.

Cientistas dizem que têm o "direito" de utilizar animais em suas experiências, mantendo-os presos em gaiolas minúsculas, submetendo-os a testes que envolvem dor e sofrimento, e matando-os para ver os resultados.

Pessoas que se intitulam "donos" de animais dizem que têm o "direito" de maltratar, espancar, deixar preso, na chuva, no frio, sem água ou comida os seus "animais de estimação".

E a grande maioria da população diz que tem o "direito" consumir produtos provenientes da morte e da exploração de animais, financiando uma indústria cruel e desumana para a produção de carne, ovos, leite, couro, peles e produtos testados em animais.

Todo mundo defende o seu "direito" a maltratar, torturar e matar animais. Mas e o direito à vida, à liberdade e à não-tortura dos animais? Podem ser violados em nome desses "direitos" que seres humanos acreditam possuir?

É absurdo que em pleno século XX as pessoas acreditem ter "direito" a torturar, maltratar, explorar e matar um animal.

Temos, sim, o dever de proteger esses seres, que sentem e sofrem como nós, mas que não têm voz para se defender das atrocidades e crueldades a que são submetidos diariamente.

Incomoda a todos aqueles que se opõem à defesa dos animais o fato de que seres humanos escolham lutar contra seres da própria espécie para salvar seres de uma espécie diferente.

No entanto, vale lembrar que a dor é sentida da mesma forma para ambas as espécies. E atos covardes e cruéis não são "menos graves" porque são cometidos contra uma espécie diferente. Eles continuam sendo aterrorizantes, porque lembram diariamente do que o ser humano é capaz.

Se uma pessoa é capaz de ser cruel e maltratar um animal, também é capaz de fazer o mesmo com o seu próximo.

Talvez seja exatamente isso que a defesa pelos animais incomode tanto: o fato de sabermos que se os agressores não tiverem mais os animais para "extravasar" sua maldade, restará os seres da sua própria espécie...

6 de abril de 2010

egos inflados por um mundo melhor

Às vezes me impressiono com o número de pessoas que se engajam em alguma causa. Seja pelo meio ambiente, seja pelos direitos sociais, seja pela natureza, seja pelos animais, seja pelas crianças, seja contra a fome - enfim, causa é o que não falta nesse mundo.

Admiro aqueles que se doam, se entregam, abrem mão de coisas materiais em prol de uma causa que visa o bem da coletividade - por um mundo melhor.

No entanto, lá no fundo, essas pessoas não deixam de ser seres humanos. E é muito difícil encontrarmos Gandhi's ou Sidarta's pelo mundo.

O que acontece é que, por mais nobre que seja uma causa, ela pode se tornar um problema quando encontra um ego inflado. E aí, ao invés do engajamento pelo bem da coletividade, presenciamos um engajamento por si próprio; um meio de se promover através do ideal de 'por um mundo melhor'.

Não desprezando os verdadeiros guerreiros deste mundo, que realmente se entregam pelos seus ideais. Mas, no fundo, ainda acredito que se você realmente contribui para um mundo melhor, não precisa anunciar aos quatro ventos. Basta estar bem consigo mesmo. Basta sentir no coração.